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sábado, 19 de novembro de 2016

A página que nunca foi lida

                     Como o de costume de qualquer criança normal, eu não gostava de ler, meu irmão não, sempre comprava, ganhava lia e relia livros, livros diversificados, com histórias e escritores diferentes. Meu irmão sempre me dizia para ler.
                    _Ranita, larga de brincar um pouco e leia um livro! Você viajará mais do que viaja com as suas brincadeiras.
                   Poxa, ele falava aquilo com tanta convicção, com uma empolgação incrível, mas como algumas palavras misturadas poderiam fazer alguém viajar?
                   Meu irmão sempre ia em uma livraria de livros usados dirigida por um casal de idosos, que falavam a mesma língua que ele. Mas eu não. Eu achava os livros legais, eles num canto e eu no outro. Mas então de surpresa, ganhei um livro do meu irmão. Eu encantei com a capa, era de um menino em cima de um mundo, um príncipe, um pequeno príncipe. Aquele livro ficou na estante da minha casa por vários meses, e eu olhava a capa e folheava as páginas só pra ver se tinha mais gravuras, e quando eu pensava ''vou ler'' eu olhava o tanto de página e logo ia brincar. De tanto brigarem comigo, eu verdadeiramente peguei o livro pra ler, li a biografia do escritor, não entendi nada, mas quando eu ia entrar na história.
                 _Ranita, Ranita, oh Ranita! Vamos brincar! Minhas amigas interrompiam, sempre era assim.
                 Em um final de semana qualquer _não tão qualquer assim_ a rua onde eu brincava estava quieta, meus pais dormiam em plena tarde de domingo, e meu irmão como de costume lia um livro, minhas amigas estavam viajando, eu queria viajar também, mas como? nem saia da rua de cima da minha casa. Ah, aquele livro me perseguia! Eu vi dois caras estranhos comentando sobre o livro e eles terminavam a frase um do outro, parecia que era combinado.
                Enfim peguei esse bendito livro que me perseguia dia e noite. Já que havia lido a introdução, então pulei logo para história antes que alguém me interrompesse. No começo, eu confesso que foi entendiante, mas já na décima quinta página comecei a me envolver com cada palavra, mas não conseguia ler dez páginas no mesmo dia, era o primeiro livro que eu lia, no máximo era três páginas por dia que eu conseguia ler. O livro era um pouco grande, mas eu não ligava para as páginas, pois as páginas já haviam me domado, mesmo minhas amigas me chamando pra ir brincar, eu não aguentava deixar de ler mais um trecho e outro e mais outro, seria como se uma mãe tivesse abandonando o próprio filho, talvez seria a mesma dor se eu abandonasse aquele livro, então deixei as amigas de lado e fiquei com o meu filho, quer dizer, o livro.
                Algum tempo depois, faltavam só duas páginas pra o terminar, mas como o livro veio de uma livraria de livros usados, obviamente o livro era usado, pior, a ultima página estava colada.
              _E agora como vou saber o final? Demorei muito pra ler esse livro, como eu vou descolar essa pagina? Vai que em vez de descolar ela rasga.
                Então eu vi que não havia solução e comecei eu mesma fazer o meu final  e tentando imaginar se era igual a do livro, li o livro três vezes ainda durante a minha infância, até cheguei a colocar a página contra o sol pra ver se via algo, mas nada, parecia que não era pra me ver mesmo, o primeiro livro que li e não sabia qual era o final, que triste não? E logo abandonei aquele livro, mais não o final, cujo nem sabia qual era, e voltei a ser uma criança ''normal''.
                Já na adolescência, em uma livraria eu vi o mesmo livro que li há anos atrás, empolgante já o apanhei sobre minhas mãos, mas antes de abri-lo eu pensei, já se passaram tantos verões sem saber o fim dessa história, talvez o meu final seja mais emocionante. Então sentei perto da escadaria, colei a ultima página daquele e de todos os livros daquela livraria, fiz o mesmo que fizeram comigo um dia, não, eu não sou pessoa má e nem vingativa, apenas estou fazendo o meu próprio final de uma página que nunca foi e nunca será lida.

Escrito em: 21 de Fevereiro de 2011

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